Autor: por Mauro Camargo/Michely Figueiredo
Santos precisa ampliar capacidade para não perder cargas
Fábio Siccherino defende expansão do Porto de Santos, concessão do canal, segurança regulatória e novos investimentos para evitar perda de cargas.
EXPANSÃO PORTUÁRIA
Santos precisa crescer antes de perder cargas, diz Siccherino
CEO da DP World defende ampliação urgente da capacidade, concessão do canal e regras estáveis para manter investimentos e serviços marítimos
O atraso na ampliação da capacidade do Porto de Santos não favorece os terminais que já operam no complexo. Ao contrário, pode levar armadores a transferir serviços para Santa Catarina, Paranaguá ou Rio de Janeiro, reduzindo a movimentação de todos os operadores instalados no maior porto da América Latina.
O alerta foi feito por Fábio Medrano Siccherino, CEO da DP World no Brasil, durante o Painel 2 do II Congresso Nacional Portuário. O executivo contestou a interpretação de que as empresas impedidas de disputar o Tecon 10 seriam beneficiadas pela demora do projeto.
“Para nós, atuais incumbentes, esse atraso é muito ruim”, afirmou. A preocupação está na capacidade futura. Quando uma companhia marítima conclui que determinado porto não terá espaço suficiente em cinco ou sete anos, começa a planejar seus serviços em outros complexos.
Siccherino sustentou que a expansão é urgente. O Porto de Santos movimenta aproximadamente 6 milhões de TEUs por ano, diante de cerca de 15 milhões de TEUs em todo o país. Para um complexo que pretende permanecer conectado às principais rotas internacionais, a capacidade atual se aproxima de um limite.
O Tecon 10 é considerado indispensável pelo executivo. A discussão deveria encontrar uma solução rápida, preservando o equilíbrio concorrencial e a competência técnica da Antaq.
A DP World manifestou interesse no empreendimento, mas Siccherino afirmou que não venderá seu terminal atual para participar da licitação. Segundo ele, o ativo caminha para movimentar, em 2028, 2,1 milhões de TEUs, 5 milhões de toneladas de celulose e 12,5 milhões de toneladas de grãos e fertilizantes.
Os investimentos envolvidos se aproximam de R$ 5 bilhões. Pouco mais de R$ 2 bilhões seriam aplicados pela DP World, enquanto Rumo e CHS destinariam outros R$ 2,5 bilhões ao terminal de grãos e fertilizantes.
Siccherino afirmou que a empresa respeitou a modelagem estabelecida pela Antaq e decidiu não participar diante da exigência de alienação do ativo existente. O que considera prejudicial é o prolongamento indefinido da controvérsia.
O executivo também defendeu a convivência entre terminais de uso privado e arrendamentos em portos organizados. Cerca de dois terços da movimentação portuária brasileira passam, segundo ele, por terminais privados.
Os dois regimes apresentam diferenças. Os arrendamentos possuem objeto, capacidade, investimentos e condições de retorno definidos em contrato administrativo. Os TUPs não dispõem dos mesmos mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro, mas têm maior liberdade para adaptar o empreendimento à demanda.
A trajetória da DP World foi usada como exemplo. Concebido inicialmente para contêineres, o terminal tornou-se multipropósito. Incorporou uma instalação para celulose, em parceria com a Suzano, e avança para operar grãos e fertilizantes.
Essa flexibilidade, porém, não elimina os entraves. Siccherino apontou a demora do licenciamento ambiental e as mudanças regulatórias como obstáculos à alocação de capital.
A DP World atua em 85 países e possui 82 terminais. Cada projeto brasileiro disputa recursos com investimentos localizados em outras partes do mundo. Quando o capital é reservado e a obra demora dois ou três anos para começar, a empresa pode transferi-lo para um mercado capaz de gerar retorno mais rapidamente.
No licenciamento, Siccherino evitou responsabilizar individualmente os técnicos do Ibama. Para ele, o órgão precisa receber pessoal e recursos compatíveis com a quantidade e a complexidade dos projetos sob análise.
A instabilidade regulatória é mais difícil de resolver. Alterações nas tarifas e nos critérios de cobrança podem modificar a relação dos terminais com armadores e embarcadores. Uma decisão aparentemente pontual produz efeitos sobre diversos contratos.
O executivo também apoiou a concessão do canal de acesso de Santos. O modelo deverá impor metas de aprofundamento, manutenção, sinalização e qualidade, sem criar tarifas capazes de inviabilizar o porto.
Com profundidade adequada, Santos poderia receber navios de 14 mil a 16 mil TEUs em melhores condições e utilizar integralmente sua capacidade. Isso reduziria custos e permitiria ao porto funcionar como concentrador regional de cargas.
Navios maiores poderiam descarregar em Santos mercadorias destinadas a países com restrições de calado, como a Argentina. A distribuição seria realizada por embarcações menores e serviços de cabotagem.
Siccherino defendeu ainda o conceito de complexo portuário-industrial. Modelos como London Gateway, Jebel Ali e Caucedo integram porto, armazéns, indústria, logística e regimes tributários voltados à agregação de valor.
Em vez de exportar apenas produtos primários ou importar mercadorias prontas, o Brasil poderia trazer componentes, combiná-los com conteúdo nacional, processá-los e reexportá-los. O Paraguai, com o Regime de Maquila (sistema paraguaio de incentivo à produção destinada principalmente à exportação), e a República Dominicana foram apresentados como exemplos.
No mercado de trabalho, o executivo afirmou que já existe escassez de profissionais técnicos. A expansão portuária exigirá formação para atividades que incorporam automação, inovação e inteligência artificial.
Ele evitou transformar a discussão sobre trabalhadores vinculados ou não ao Órgão Gestor de Mão de Obra em uma oposição absoluta. Para Siccherino, qualquer modelo precisa oferecer profissionais capacitados, produtivos e comprometidos com segurança, sustentabilidade e competitividade.
Mesmo diante das dificuldades, o executivo disse enxergar melhora no ambiente portuário brasileiro. Há interesse estrangeiro e projetos prontos para sair do papel. O desafio é preparar as instituições para que o capital não permaneça parado — nem procure outro porto ou outro país.
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