Autor: por Mauro Camargo/Michely Figueiredo
Segurança portuária protege comércio e exportações
Rodrigo Perin Nadi defende prevenção integrada, troca de informações e controle de riscos para proteger exportações e a credibilidade dos portos brasileiros.
SEGURANÇA E COMÉRCIO
Perin liga segurança à credibilidade portuária
Chefe da Polícia Federal em Santos afirma que prevenção integrada reduz custos, protege mercados e impede que o crime comprometa exportações brasileiras
Falhas de segurança pública dentro ou no entorno dos portos não produzem apenas ocorrências policiais. Elas encarecem a logística, abalam a confiança de compradores estrangeiros e reduzem a competitividade do comércio exterior. A avaliação foi apresentada pelo delegado Rodrigo Perin Nadi, chefe da Polícia Federal em Santos, no Painel 5 do II Congresso Nacional Portuário.
Perin partiu do artigo 144 da Constituição para ampliar o conceito de segurança pública. O dispositivo a define como dever do Estado, direito e responsabilidade de todos. Na interpretação do delegado, isso significa que as instituições policiais mantêm atribuições próprias de prevenção e repressão, mas a proteção depende também de cooperação com Receita Federal, Agência Brasileira de Inteligência, Forças Armadas, autoridades portuárias e empresas.
A troca de informações ocupa posição central nesse modelo. O porto reúne cargas, pessoas, veículos e agentes econômicos em escala incompatível com ações isoladas. Receita pode identificar anomalias aduaneiras; terminais conhecem seus acessos e empregados; polícia investiga redes; inteligência acompanha ameaças; empresas controlam fornecedores. A integração transforma sinais dispersos em capacidade de prevenção.
O delegado ressaltou que o ilícito já consumado produz efeitos que ultrapassam a investigação. Se um porto passa a ser associado ao tráfico de drogas, importadores, seguradoras e armadores elevam controles, custos e reservas. Cargas podem ser submetidas a inspeções adicionais, contratos podem migrar e a reputação da origem fica comprometida. O impacto chega ao preço do produto e ao chamado Custo Brasil.
Luciana Fuschini Nave, presidente do Painel 5, lembrou um episódio em que compradores franceses de açúcar ameaçaram interromper aquisições brasileiras em razão de contaminações por cocaína. A resposta exigiu proteção adicional e medidas operacionais mesmo diante de limitações de estrutura. O caso mostra como segurança e mercado se encontram: uma ocorrência criminal pode ameaçar uma cadeia exportadora inteira.
Estudo da Fecomercio de São Paulo sustenta que o desempenho da segurança influencia a comercialização. O raciocínio é direto: atuação deficitária aumenta perdas, gastos privados e desvios de recursos.
No Porto de Santos, Polícia Federal e órgãos parceiros atuam por meio da Comissão Estadual de Segurança Pública nos Portos, Terminais e Vias Navegáveis, a Cesportos. O A comissão permite planejar ações e aproximar instituições responsáveis por controle, investigação e proteção da infraestrutura.
O delegado defendeu que câmeras, controle de acesso e outros mecanismos sejam tratados como investimento. Há desembolso inicial, mas o retorno aparece na redução de vulnerabilidades, na continuidade operacional e na recuperação de credibilidade. Um terminal capaz de demonstrar rastreabilidade e cooperação oferece mais segurança a clientes e parceiros internacionais.
O tráfico de cocaína continua como ameaça relevante. Perin afirmou que Santos permanece entre os principais pontos de saída da droga no país, apesar da redução nas apreensões. Segundo os números apresentados no painel, o volume teria se aproximado de 30 toneladas em 2018 e ficado abaixo de cinco ou seis toneladas nos anos recentes.
A queda não autoriza acomodação. O delegado comparou a criminalidade à água: quando uma passagem é bloqueada, ela procura outra saída. Organizações mudam rotas, métodos de ocultação, portos e pessoas utilizadas. O controle que funcionou ontem pode perder eficiência diante de uma nova tática. Daí a necessidade de inteligência, atualização tecnológica e cooperação permanente.
Essa dinâmica reforça a importância de proteger não somente o cais, mas toda a cadeia. Contaminação pode ocorrer antes da chegada ao terminal, durante o transporte terrestre, na armazenagem, dentro do recinto ou depois do embarque. Cada etapa precisa preservar a custódia da carga e registrar intervenções. Uma brecha distante do navio pode produzir a apreensão no destino e atribuir o dano reputacional ao porto de origem.
Perin encerrou sua participação com uma síntese: segurança pública tem efeito direto sobre a credibilidade da mercadoria que sai do Brasil. A prevenção integrada reduz o espaço do crime e protege o valor econômico da operação. No ambiente portuário, segurança não é atividade paralela ao comércio; é uma das condições para que o comércio continue existindo.
Essa responsabilidade compartilhada não dilui o dever estatal. Polícia e demais órgãos continuam responsáveis por investigar e reprimir crimes. Empresas, por sua vez, devem proteger instalações, registrar acessos, preservar evidências e comunicar fatos suspeitos. A fronteira entre as competências precisa ser clara, mas a informação não pode ficar aprisionada em cada instituição.
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