Autor: por Mauro Camargo/Michely Figueiredo
CFQ propõe modelo mínimo para governança regional
Weverton Borges defende governança conectada à operação e propõe modelo mínimo para reduzir desigualdades entre regionais.
GOVERNANÇA CONECTADA
Conselho Federal de Química propõe "regional mínimo" como solução para desigualdade entre autarquias de fiscalização
Weverton Borges defende que governança só é real quando conectada à operação e anuncia programa de incentivo à fiscalização para reduzir desvio padrão entre regionais.
O gerente executivo do Conselho Federal de Química (CFQ), Weverton Borges, subiu ao palco do Painel 2 do II Congresso de Governança dos Conselhos Profissionais na tarde de quinta-feira (21) com uma constatação que ecoou entre os gestores presentes: a governança nos conselhos, muitas vezes, existe apenas no papel. "Será que nós temos governança ou a governança está apenas em instrumentos formais de políticas públicas, disponíveis na transparência? O documento está lá, está disponível. Mas de fato é efetivo? De fato é feito?", provocou.
Borges assumiu o cargo no CFQ no ano anterior com a missão específica de tratar de governança estratégica. E, ao contrário de discursos genéricos, apresentou um diagnóstico preciso e uma proposta concreta: o "regional mínimo" — um modelo de estrutura básica que permita aos conselhos regionais entregar resultados à sociedade, independentemente do porte ou da receita.
O gerente executivo começou traçando um retrato realista do cenário dos conselhos de fiscalização profissional no Brasil. "O COFEN é um irmão rico, mas a maioria dos conselhos está em um patamar com deficiências administrativas, por causa de uma receita que é a todo momento questionada por legislações", afirmou. Para ele, a ênfase exclusiva na fiscalização — atividade precípua dos conselhos — acaba deixando em segundo plano a estrutura de gestão que deveria sustentá-la. “O que adianta fiscalizar se não temos uma estrutura de planejamento que dê garantia e possibilidade de atuação na excelência?”
O diagnóstico central de Borges é que a governança atua de forma isolada, dissociada da gestão operacional. "Essa dissociação faz com que haja lacunas entre a estrutura de políticas e o que de fato acontece na operação. É uma realidade dentro dos conselhos", disse. Para ele, não é possível exigir de um funcionário público que entregue resultados se a estrutura que o conselho fornece não permite que ele exerça suas atividades orientadas a resultados.
"Instituição é feita de pessoas. Não tem como exigir que um funcionário faça o trabalho a contento se a estrutura que o conselho fornece não permite que ele exerça suas atividades orientadas a resultados", completou.
Borges defendeu que o planejamento estratégico — especialmente o planejamento unificado que o TCU vem exigindo — precisa ouvir a base. E aqui ele não se referia apenas aos profissionais registrados nos conselhos, mas também aos funcionários de carreira. "É preciso ouvir a base que são os profissionais, os funcionários de carreira", disse.
O ponto alto da apresentação foi a proposta do "regional mínimo". Borges explicou que o CFQ está desenvolvendo um modelo de estrutura básica para os conselhos regionais, considerando critérios de territorialidade, dimensão de profissionais e número de empresas fiscalizadas. Citou o exemplo da 14ª Região, que abrange Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. "O custo de uma fiscalização lá é extremamente alto e, em contrapartida, o número de profissionais e empresas não acompanha esse investimento. O conselho precisa ter um investimento muito mais agressivo."
O programa foi batizado de PEDAF — Programa de Desenvolvimento e Aceleração da Fiscalização — e prevê repasses diretos do federal para os regionais com um modelo de investimento para que as ações de fiscalização sejam possíveis e efetivas. "A gente está no primeiro ano de investimento direto no PEDAF. O próximo passo é avançar com a contratação de serviços de destinação exclusiva de mão de obra para otimizar essas ações operacionais."
Borges também compartilhou a experiência do CFQ em parcerias interinstitucionais. Citou a participação, na Bahia, da fiscalização preventiva integrada ao lado do CONFEA, do Conselho de Técnicos Industriais, do Conselho de Biologia e do Ministério Público Estadual, numa ação para avaliar a qualidade da água na bacia do Rio São Francisco. “Um impacto direto na sociedade. E o nosso raio de ação precisa fazer isso: levar essa informação para a sociedade, para que ela entenda onde está o valor investido dos nossos fiscais.”
Para Borges, a virada de paradigma deste ano é que a governança precisa gerar valor público em formato digital, acessível e conectado. “Nós estamos em busca do valor público digital. Se você não mede, não tem como aprimorar ou melhorar os seus procedimentos.”
Ele lembrou que o CFQ está completando 70 anos de existência e que, sem uma estrutura mínima de governança, os conselhos correm o risco de continuar patinando entre a exigência normativa e a realidade operacional. “Não adianta falar em obrigação, em gerar valor, se não temos a mínima estrutura possível para se fazer isso nas bases.”
O gerente executivo encerrou com uma mensagem que resumiu o espírito de sua fala: "Não existe estrutura eficiente sem governança. Mas não existe governança real sem conexão com a operação."
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