PARA CONSELHOS MENORES, COOPERAÇÃO COM O CNJ É QUESTÃO DE SOBREVIVÊNCIA, DIZ PRESIDENTE DO CFFA
Resumo
PARCERIA ESTRATÉGICA II
Para conselhos menores, cooperação com o CNJ é questão de sobrevivência, diz presidente do CFFA
Silvia Tavares de Oliveira detalha como estruturas enxutas e barreiras judiciais tornam o pacto com o Judiciário uma ferramenta essencial para a sustentabilidade financeira e a segurança jurídica dos gestores.
Mauro Camargo
Para os conselhos profissionais de menor porte, a cooperação técnica com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) não é apenas uma ferramenta de modernização, mas uma questão de sobrevivência. Com estruturas internas enxutas, orçamentos apertados e uma crescente dificuldade para cobrar judicialmente as anuidades — sua principal fonte de receita —, a parceria com o Judiciário surge como a única saída para garantir a sustentabilidade financeira e, ao mesmo tempo, oferecer segurança jurídica a gestores que, muitas vezes, não têm formação na área administrativa. O diagnóstico foi apresentado pela presidente do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFA), Dra. Silvia Tavares de Oliveira, durante sua participação no painel sobre cooperação técnica, nesta sexta-feira, 10, no Congresso Nacional de Governança dos Conselhos Profissionais, em Brasília.
Representando um conselho com 57 mil profissionais em todo o país — um número considerado pequeno em comparação com outras categorias —, Silvia Tavares trouxe uma perspectiva do “chão de fábrica” da gestão. Ela destacou o desafio de ser uma profissional da saúde subitamente alçada a um cargo de gestão, responsável por temas complexos como governança, finanças e cobranças judiciais. “É uma dificuldade ser gestor nessa condição, onde a gente tem uma formação totalmente diferente e, de repente, é colocado em um cargo onde tem que saber muita coisa sobre vários assuntos”, confessou.
Essa dificuldade, segundo ela, foi agravada nos últimos anos. A promulgação da Lei 14.195/2021 e a sobrecarga do próprio Judiciário criaram barreiras para a execução dos créditos. Com uma taxa média de inadimplência que chega a 20% no sistema de conselhos, a extinção de processos de pequeno valor antes mesmo da análise do mérito começou a comprometer seriamente o orçamento das autarquias. “É uma receita que faz falta para que a gente possa seguir com a nossa missão, que é fiscalizar o exercício profissional e proteger a sociedade”, afirmou.
A presidente do CFFA usou o exemplo de seu próprio sistema para ilustrar a fragilidade estrutural. O Conselho Regional de Fonoaudiologia do Rio Grande do Sul, com 3.500 registrados, possui uma equipe de apenas quatro pessoas para cobrir todas as demandas: um fiscal, um administrativo, um advogado e um assistente. “Nós temos uma estrutura de funcionários muito pequena, e isso dificulta a criação de núcleos especializados na cobrança e no acompanhamento jurídico. É a nossa maior dificuldade”, explicou.
Diante desse cenário de recursos humanos e técnicos limitados, a proposta de cooperação técnica com o CNJ, nascida dentro do Fórum dos Conselhos de Profissões Regulamentadas, foi recebida como uma solução sistêmica para um problema sistêmico. “Sozinhos, a gente tem dificuldades. Com cooperações, a gente pode ter resultados bem mais positivos”, defendeu. O Conselho Federal de Fonoaudiologia, segundo ela, já analisou o acordo e se prepara para assiná-lo em breve.
Os benefícios esperados são concretos e impactam diretamente na capacidade de atuação dos conselhos. A parceria visa padronizar os procedimentos de cobrança, integrar os sistemas eletrônicos dos conselhos com as plataformas judiciais (como e-Proc e PJe), facilitar os trâmites extrajudiciais e, acima de tudo, garantir a segurança jurídica na relação com o Judiciário. Na prática, isso significa uma redução de custos com ações e honorários, a ampliação do acesso a informações sobre os devedores e o fortalecimento da imagem institucional dos conselhos como órgãos comprometidos com a eficiência.
Para a Dra. Silvia Tavares, a cooperação também representa um alívio para a responsabilidade pessoal dos gestores. Ela lembrou que, como presidente, todas as decisões e responsabilidades financeiras estão atreladas ao seu nome. “É muito difícil, principalmente para mim que venho da área da saúde, ter que fazer a gestão de um orçamento que está sob o meu CPF. Quando a gente tem uma possibilidade de nos garantir, a gente tem que aceitar”, declarou, ressaltando o valor da segurança jurídica que o pacto oferece.
Ao final, a presidente do CFFA reforçou que a adesão à cooperação técnica é um caminho inevitável para a modernização e para demonstrar a eficiência administrativa que é tão cobrada dos conselhos. “A cooperação não é apenas um instrumento jurídico, mas um instrumento de cidadania e de modernização da gestão pública. Ela reafirma que o nosso papel não é apenas fiscalizar, mas servir a sociedade com ética, eficiência e com a responsabilidade que todos nós, gestores, sabemos que temos que cumprir”, concluiu.
PAINEL 4 - COOPERAÇÃO TÉCNICA ENTRE O CNJ, CONSELHOS DE PROFISSÕES REGULAMENTADAS E OS TRIBUNAIS
Presidente de mesa: Dra. Gerlane Alves, Jornalista
Expositores: Dra. Silvia Tavares de Oliveira, Presidente do CFFA; Dr. Thiago Lobo - Conselheiro do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo; Dr. Weverton Borges do Nascimento de Sousa - MD Gerente Executivo do Conselho Federal de Química.
Outros artigos desta edição
CREFITO-3 AUMENTA ARRECADAÇÃO EM 56% E ZERA NOVAS EXECU...
por Mauro Camargo (jornalista...
COBRANÇA HUMANIZADA Crefito-3 aumenta arrecadação em 56% e zera novas execuções com ...
Ler artigoPAINEL DEBATE CAMINHOS PARA COBRANÇA JUSTA E APONTA A ...
por Mauro Camargo (jornalista...
CONCILIAÇÃO TRIBUTÁRIAPainel debate caminhos para cobrança justa e aponta a desjudicialização ...
Ler artigoSISTEMA DE EXECUÇÃO FISCAL ESTÁ 'FALIDO', DEFENDE ...
por Mauro Camargo (jornalista...
DESJUDICIALIZAÇÃOSistema de execução fiscal está 'falido', defende advogado em congresso de ...
Ler artigoCONSELHOS DESEJAM CONCILIAR, MAS RECEIO DO TCU PARALISA ...
por Mauro Camargo (jornalista...
DILEMA DOS CONSELHOSConselhos desejam conciliar, mas receio do TCU paralisa gestores, afirma ...
Ler artigoSobre esta Edição
CONGRESSO NACIONAL DE GOVERNANÇA DOS CONSELHOS DE CLASSE
As principais falas, ideias e reflexões dos participantes reunidas em textos que eternizam o melhor dos debates do evento...